HPV de alto risco e carcinoma de células escamosas de boca: Controvérsias, polêmicas e muitas dúvidas.

 

Luciano Marques-Silva1        e-mail: lucianomarquesilva@gmail.com

André Luiz Sena Guimarães2           e-mail: andreluizguimaraes@gmail.com 

Ricardo Santiago Gomez3      e-mail: rsgomez@ufmg.br

 

1 Pós-doutorando Universidade Federal de Minas Gerais

2Professor do Departamento de Odontologia da Universidade Estadual de Montes Claros

3 Professor do Departamento de Clínica Patologia e Cirurgia da Faculdade de Odontologia Universidade Federal de Minas Gerais

 

O sexo oral é realmente um carcinógeno perigoso? Este é o título do último artigo relacionado aos HPVs de alto risco e câncer de boca indexado no PUBMED até o dia 23 de março de 2012 e ilustra bem a polêmica do tema1. Tudo começou na década de 80, quando entre outros, os ganhadores do prêmio Nobel de Medicina 2008, (Harald zur Hausen, Françoise Barré-Sinoussi e Luc Montagnier)2, postularam a teoria de que o carcinoma de células escamosas (CCE) genital poderia ser causado pelo HPV, especialmente os subtipos 16 e 18. Após estas observações muitos pesquisadores indagaram sobre a possibilidade do câncer ser transmitido durante o ato sexual. Vários trabalhos sugerem que os HPVs de alto risco podem também estar associados com a carcinogênese bucal3-5. Por outro lado, em outros artigos, a associação não é observada6. O fato é que não existe uma diferença na biologia tecidual da mucosa bucal, em relação ao colo de útero, que impeça a infecção pelos HPVs de alto risco. A diferença de hábitos entre as populações mundiais e dos grupos de estudo podem influenciar nas diferenças de percentual de detecção do HPVs encontradas. Além disso, a forma de detecção empregada seria outro fator de conflito. Não se estabeleceu ainda, como exames de rotina, uma forma padronizada para detectar o HPV. Um dos grandes problemas é que somente a minoria dos laboratórios de patologia podem trabalhar com RNA. Neste sentido, alguns pesquisadores sugerem o uso da imuno-histoquímica para P16 associada a hibridização in situ 7. Esta combinação de técnicas , pelo menos em teoria, chega a ser inadequada uma vez que é comum no CCE de cabeça e pescoço a presença de alterações genéticas8 ou epigenéticas9 4 do gene p16(CDKN2A) (o que poderia causar um falso negativo na detecção através da imuno-histoquímica). Além disso, a hibridização in situ é menos sensível do que o PCR de DNA. Apesar de 1052 trabalhos relacionados ao tema no PUBMED, as dúvidas estão longe de acabar. O objetivo deste texto é inserir algumas questões simples para que façamos uma reflexão.

  1. A infecção pelo HPV pode alterar o prognóstico do paciente com CCE bucal?

De forma geral a literatura sugere que pacientes HPV+ têm um melhor prognóstico especialmente porque geralmente podem produzir proteína P16. Por outro lado sugere-se que este melhor prognóstico depende da capacidade do indivíduo para produzir anticorpos contra o proteínas E6 e E7 do vírus 10. Alguns estudos na  população Brasileira não observaram associação do HPV com o prognóstico2,11 No momento este fato ainda não está claro e mais estudos são necessários para elucidar esta dúvida.

  1. O sexo oral é condição fundamental para a infecção dos HPVs?

Foi demonstrado que pode ocorrer infecção pelo HPV na mucosa bucal sem o sexo oral 12. Uma importante informação do mesmo trabalho foi que entre cônjuges a transmissão do HPV oral é plausível. Vale a pena ressaltar que a infecção não é um processo simples, uma vez que também depende das características do hospedeiro. Nesta mesma linha de raciocínio, o processo de carcinogênese também é um processo complexo e multifatorial.

  1. O câncer causado por HPVs pode ser considerado uma variante que mereça tratamento diferenciado?

As divergências dos estudos que observam melhor prognóstico em pacientes com CCE HPV+ 13, os que não observaram11 2 e os que sugerem que o processo é mais complexo 10 nos mostram que mais trabalhos são necessários para entender o papel da infecção pelos HPVs de alto risco no CCE de boca

 

Leitura complementar:

1- Rosenquist, S. E. Is Oral Sex Really a Dangerous Carcinogen? Let's Take a Closer Look. J Sex Med  2012 doi:10.1111/j.1743-6109.2012.02684.x 

2- Kaminagakura, E. et al. High-risk human papillomavirus in oral squamous cell carcinoma of young patients. Int J Cancer 2012;130:1726-1732.

3- Jabbar, S., Strati, K., Shin, M. K., Pitot, H. C. & Lambert, P. F. Human papillomavirus type 16 E6 and E7 oncoproteins act synergistically to cause head and neck cancer in mice. Virology 2010;407: 60-67.

4-Fonseca-Silva, T. et al. Analysis of p16(CDKN2A) methylation and HPV-16 infection in oral mucosal dysplasia. Pathobiology 79, 94-100, doi:10.1159/000334926 (2012).

5- Syrjanen, S. et al. Human papillomaviruses in oral carcinoma and oral potentially malignant disorders: a systematic review. Oral Dis 2011;17:58-72, Suppl 1.

6- Kristoffersen, A. K. et al. Human papillomavirus subtypes in oral lesions compared to healthy oral mucosa. J Clin Virol 2012;53: 364-366.

7- Pannone, G. et al. Evaluation of a combined triple method to detect causative HPV in oral and oropharyngeal squamous cell carcinomas: p16 Immunohistochemistry, Consensus PCR HPV-DNA, and In Situ Hybridization. Infect Agent Cancer 2012 doi:10.1186/1750-9378-7-4.

8- Perez-Ordonez, B., Beauchemin, M. & Jordan, R. C. Molecular biology of squamous cell carcinoma of the head and neck. J Clin Pathol 2006;59: 445-453.

9- Farias, L. C. et al. Effect of age on the association between p16CDKN2A methylation and DNMT3B polymorphism in head and neck carcinoma and patient survival. Int J Oncol 2010;37: 167-176.

10- Smith, E. M. . et al. Risk factors and survival by HPV-16 E6 and E7 antibody status in human papillomavirus positive head and neck cancer. Int J Cancer 2010;127: 111-117.

11-  Marques-Silva, L . et al. HPV-16/18 detection does not affect the prognosis of head and neck squamous cell carcinoma in younger and older patients. Oncology Letters 2012;3: 945-949.

12- Rintala, M., Grenman, S., Puranen, M. & Syrjanen, S. Natural history of oral papillomavirus infections in spouses: a prospective Finnish HPV Family Study. J Clin Virol 2006;35:89-94.

13-  Rades, D. et al. Prognostic factors (including HPV status) for irradiation of locally advanced squamous cell carcinoma of the head and neck (SCCHN). Strahlenther Onkol 2011;187: 626-632.