Porque devemos estar atentos ao conceito de campo de cancerização na mucosa bucal?

Autor: 

Profa. Carolina Cavaliéri Gomes

Prof. Ricardo Santiago Gomez          e-mail: rsgomez@ufmg.br

Figura ilustrando a formação de lesão precursora (leucoplasia) e o carcinoma de células escamosas a partir de um campo de células alteradas. Esta figura foi elaborada pela Dra. Marina Gonçalves Diniz.

 

O conceito de campo de cancerização na mucosa oral é extremamente importante na avaliação de um paciente com leucoplasia ou carcinoma de células escamosas na região do trato digestivo superior.  Este conceito foi primeiramente proposto em 1953 por Slaughter e colaboradores. Eles descreveram a presença de alterações histopatológicas nas margens clinicamente normais dos carcinomas orais. Além disto, descreveram um padrão histológico de origem multicêntrica destes tumores.  E assim propuseram a existência de um campo de cancerização, em que um grupo de células sofreria as influências do meio e exibiriam alterações que posteriormente originariam câncer em localizações e momentos distintos. Durante a reflexão para elaboração deste conceito, Slaughter e colaboradores (1953) ainda se baseavam apenas no exame clínico e histopatológico, uma vez que foi apenas neste mesmo ano que ocorreu a descrição da estrutura do DNA por Watson e Crick.

A partir da descoberta do DNA e do desenvolvimento das técnicas de biologia molecular,  o conceito de campo de cancerização evoluiu, passando a incorporar alterações moleculares. Evidências de estudos moleculares mostram que a transição do epitélio de mucosa normal para o câncer envolve uma sequência de alterações genéticas e epigenéticas. Estas alterações levam a desregulação de genes que controlam o ciclo celular, apoptose invasão e metástase. Neste contexto, segundo a teoria de campo de cancerização, alterações moleculares iniciais em células de reserva levariam a formação de um campo alterado. Este campo se apresenta clinicamente de aparência normal e não é possível de ser visualizado pelo profissional de saúde. Logo em seguida, este campo sofre expansão e se estende sobre uma superfície maior da mucosa. Alterações moleculares adicionais levam ao aparecimento de uma lesão precursora ou cancerizável. Esta lesão pode ser identificada clinicamente como uma placa branca ou predominantemente branca (leucoplasia).  Novas alterações genéticas ou epigenéticas podem levar a transformação maligna da lesão precursora ou o aparecimento de nova lesão precursora próxima da lesão transformada. Mesmo com a excisão do carcinoma, a mucosa de aparência clínica normal exibe alterações moleculares que podem leva-la a formação de novas lesões precursoras ou carcinomas. Desta forma, a excisão cirúrgica  da leucoplasia remove a lesão clínica, mas não retire todo o conjunto de células alteradas que se apresentam “disfarçadas” de mucosa aparentemente normal na região do campo alterado. Como técnicas moleculares avançadas são necessárias para se estudar a extensão do campo alterado, este procedimento não é possível de ser realizado rotineiramente. Em alguns casos, a extensão deste campo alterado atinge alguns centímetros, não sendo viável a sua remoção clínica.  Desta maneira, embora a excisão cirúrgica da leucoplasia remova células alteradas presentes na lesão, não elimina de forma efetiva a possibilidade de formação de um novo carcinoma a partir de células da mucosa adjacente. A teoria do campo de transformação também permite entender porque pacientes com leucoplasias múltiplas mostram maior risco de desenvolver carcinoma de boca do que aqueles com lesões únicas.
(Veja também perda de heterozigosidade e leucoplasias)
 
Leitura complementar:
 

1- Braakhuis BJM, Leemans CR, Brakenhoff RH. Genetic progression model of oral cancer: current evidence and clinical implications. J Oral Pathol 2004; 33:317-322.

2- Homstrup P. Can we prevent malignancy by treatment premalignant lesions? Oral Oncology 2009;45:549-550.

3- Mehanna H, Rattay T, Smith J, McConkey CC. Treatment and follow-up of oral dysplasia. A systematic review and meta-analysis. Head Neck 2009;31:1600-1609. 

4- Slaughter DP, Southwick HW, Smejkal W. Field cancerization in oral stratified squamous epithelium. Clinical implications of multicentric origin.Cancer, 1953;6:963-968.