Sífilis

Imagem clínica da lesão em placa por sífilis. Notar superfície fibrinóide.

 

A sífilis é uma doença causada pelo espiroqueta Treponema pallidum. Sua história remete aos tempos do descobrimento das Américas, quando houve uma pandemia no velho mundo. Tal doença pode ser transmitida pelo contato direto com sangue, saliva ou lesões do paciente contaminado. Por isso, o contato sexual com parceiro portador de lesões ativas, a transfusão de sangue ou a inoculação transplancentária do feto pela mãe contaminada têm sido as formas de contágio mais comuns.  Quanto ao hospedeiro, destaca-se que, no caso da sífilis, tal como da gonorreia, o homem é o único hospedeiro natural.

No local de entrada do espiroqueta aparece uma lesão primária. Tal lesão, conhecida como cancro, é caracterizada pela formação de uma úlcera indolor de 1-2 cm, dura a palpação e com bordas elevada, localizada principalmente na região genital, mas também podendo aparecer na mucosa bucal. Junto ao cancro, é observado também uma linfadenopatia regional indolor. Após 3-6 semanas, ocorre a cicatrização, mesmo na ausência de tratamento.

Cerca de 2 a 10 semanas após a cicatrização do cancro há uma disseminação do treponema, com o surgimento de erupções cutâneas maculopapulosas, linfadenopatia generalizada, febre e ulcerações nas mucosas. Essas são recobertas por material fibrinóide, o que confere a aparência de placas brancas (ver figura acima).

Sobre as fases de desenvolvimento da sífilis, é importante destacar que o paciente pode desenvolver a fase secundária sem o surgimento da fase primária. A fase latente é quando há desaparecimento dos sinais e sintomas da doença, embora o paciente ainda apresente sorologia positiva. Na fase terciária, as lesões  podem levar anos para o seu surgimento, acometendo principalmente o sistema nervoso central e cardiovascular. Lesões granulomatosas podem ocorrer no palato, levando a extensa destruição dos tecidos. Cabe destacar, ainda, a glossite sifilítica na boca, devido a atrofia da mucosa.

No que tange a transmissão transplacentária, o feto pode desenvolver a sífilis congênita. Essa pode levar ao aparecimento de sinais e sintomas precocemente, como erupções cutâneas, nariz em sela, tíbia em sabre ou a tríade de Hutchinson: inflamação na córnea (queratite intersticial), surdez e anomalias dentárias (incisivos chanfrados e molares em amora).

No exame histológico de lesões da sífilis pode ser observado endoarterite proliferativa, que é um estreitamento da luz do vaso, além da infiltração plasmocitária perivascular. A visualização do treponema, pode ser difícil, mesmo com coloração especial pela prata.

O Cirurgião-Dentista tem importante papel tanto no diagnóstico precoce quanto na orientação do paciente acometido pela sífilis. Vale ressaltar que as lesões das fases primárias e secundárias, bem como o sangue e a saliva, são  infecciosas. Embora a biópsia ou o exame do raspado possam ser úteis, o diagnóstico é geralmente feito com base nos exames sorológicos. Esses podem ser baseados na detecção de imunoglobulinas contra produtos de destruição dos tecidos do hospedeiro, como o Veneral Disease Research Laboratory (VDRL), ou de imunoglobulinas específicas contra o treponema, como o Fluorescent treponemal antibody absorption (FTA-ABS). O VDRL é um exame sensível e que também pode ser usado para monitorar o tratamento, embora seja positivo para a doença apenas 1-4 semanas após o aparecimento do cancro primário. Uma vez positivo para o VDRL, o paciente deve ser submetido a outro teste mais específico, como o FTA-ABS, para o diagnóstico definitivo. Como o resultado positivo para o FTA-ABS permanece ao longo da vida, ele não é utilizado para monitorar o tratamento da doença. Vale destacar que o tratamento medicamentoso da sífilis envolve o uso de penicilina em dosagem estabelecida de acordo com a fase da doença.

 

Leitura Complementar:

- Little JW. Syphilis: An update. Oral Surg Oral Med Oral Pathol Oral Radiol Endod 2005;100:3-9.